18 janeiro, 2014

Nossa ambiguidade


Era o quinto período de Biologia, e, felizmente, a última aula daquela sexta-feira sem graça. Logo mais estaríamos livres do martírio da aula da Liza, que por diversão em ver seus alunos com as mãos doendo, passou um texto na lousa que equivaleu a sete delas. E, enquanto o fazíamos, ela ficava sentada lendo mais um livro da Jane Austen – provavelmente, o quarto só naquela semana – e eu só conseguia pensar que não estava mais aguentando copiar tanta coisa.
– Ei, Stella, não estou conseguindo ver direito. Tira a cabeça daí.
Oh, e ainda tinha mais essa...
– Ih, desculpa, Jordan, mas eu não posso, ela está colada no meu pescoço, sabe...
Um bufo se seguiu do garoto de olhos azuis que (infelizmente – quando era preciso copiar demais) sentava atrás de mim. Ele alegava que eu tinha um cabeção e que por isso deveria me sentar no lugar dele e ele no meu, mas ele deve ter esquecido que ele próprio escolheu aquele lugar no primeiro dia de aula. E agora reclama. Homens...
– Você sabe que não foi isso que eu quis dizer, exatamente... – Ele sussurrou dessa vez. Pelo seu modo de falar, provavelmente ele estava tentando parecer frio e cortante, mas tudo o que conseguiu fazer foi me entediar ainda mais.
– Ah, perdoe-me. Irei voltar a estudar os casos de ambiguidade. Os seus casos ambíguos, pelo menos. – Respondi-lhe. – Mas, convenhamos, você nunca consegue ser tão explícito e direto quando fala.
– Como não? Nós estamos aqui, não estamos? Pode continuar a me agradecer. – Convencido...

– Pelo o quê exatamente? Por termos parado na turma oposta a da Leyla e ter largado ela sozinha no 2º B, ou por ter perdido o lançamento de O Livro das Princesas aqui na cidade porque você ofendeu a professora e ela nos colocou na detenção do turno da noite?
– Ah, qual é, a Leyla nem é tão legal assim para merecer nossa presença. – Ele bufou de novo, e dessa vez me virei para deparar-me com um revirar de olhos do jeitinho que só ele sabia fazer... – E sem essa de ofensa, a professora Márcia é que entendeu errado o que eu falei.
– ...E isso prova, mais uma vez, o quanto você não consegue ser explícito. Obrigada por comprovar a minha tese.
– Ah, fala sério! Tira logo essa cabeçona daí e me deixa copiar, por favor. Faltam só dez minutos para o fim da aula!
– Que dez? Faltam oito minutos e... vinte... dezenove segundos. Isso mesmo. – Sorri-lhe inocente. – E, não, eu não vou “tirar” minha cabeça; se quiser você copia do meu caderno quando aula terminar.
– Mas o fim de semana... – Ele começou a dizer, mas foi interrompido pelo sinal que tocara naquele justo minuto, oito minutos mais cedo que o previsto. Felizmente.
– Começou agora, meu caro. – Sorri sincera, e guardei meu material. Ele repetiu o gesto com o próprio caderno e estojo.
Os alunos começaram a sair da sala em montes e já sabendo que o corredor ficaria “congestionado” por alguns segundos, esperamos mais um pouco em nossas carteiras.
– Se preferir, pode levar meu caderno agora para terminar de copiar. – Ofereci-lhe. – Porque, bem, você meio que tem um compromisso mais tarde, não é?
– Ah, sobre isso... – Ele começou. – Acho que ela vai furar, sabe. Ela parece não estar com um clima muito bom hoje...
– Ah, deve ser só a TPM. – Sorri-lhe novamente.
– Aí é que está, pode não ser muito fácil lidar com ela desse jeito.
– Com outros homens isso até poderia ser verdade, mas acho que você vai se sair bem... – Ponderei. – Vai ver ela só precise de um pouco das suas piadas sem graça para se sentir melhor.
– Quais são as chances, moça?
– Hum, vamos ver... Em torno de 0,5555%, talvez.
Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, ao mesmo tempo em que ele se aproximava devagar.
– Você tem que ser sempre tão exata assim?
– Faz parte de quem eu sou.
Ele sorriu ainda mais e, nessa hora, o corredor estava, enfim, mais vago e eu me virei e levantei-me da carteira, sendo seguida por ele.
– Vamos embora logo, Romeu. – Eu dei um risinho.
Puxei-o pelo braço, arrastando-o para a saída da sala, até que, um passo no batente da porta, ele me parou e falou:
– A Julieta confirma mesmo o cinema hoje à noite? – Um sorriso maroto brincava em sua boca.
– Contanto que você passe na hora... – Sussurrei.
– Então me aguarde, passarei na sua casa às 18h. – E, inclinando-se, me beijou.
Tanto fazem as discussões. No fim das contas, nossa relação era uma completa ambiguidade, e, entre tapas e beijos (literalmente), nosso romance continuava firme e forte.
Os opostos se atraem, afinal.

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